O amante que dorme na cama com vocês

Você se considera fiel ao seu parceiro?
Antes de responder, talvez seja preciso ampliar o contexto dessa pergunta porque pode existir um terceiro entrando diariamente na relação de vocês. Ele participa das refeições, interrompe conversas, acompanha os momentos de descanso e, muitas vezes, é a última coisa que vocês olham antes de dormir e a primeira ao acordar. E o mais curioso: ninguém precisa escondê-lo.
Estou falando do celular.
É claro que não estou comparando o uso de um smartphone a uma infidelidade amorosa. A comparação é apenas uma provocação, até porque pensamos em fidelidade a partir de uma fronteira bastante conhecida: com quem compartilhamos nosso corpo, nosso desejo e nossa intimidade. Mas talvez exista outra reflexão que mereça ser feita:
Para quem - ou para o quê - estamos entregando nossa presença? O casal está junto. Mas está realmente junto?
Vamos imaginar uma cena do cotidiano: duas pessoas no mesmo sofá, encostadas uma na outra, cada um olhando para sua própria tela. Elas estão fisicamente juntas, mas será que estão se encontrando?
Partner Phubbing: quando a tela ocupa o lugar da conexão
Este comportamento é tão comum e rotineiro que já existe um termo que o define: partner phubbing. Tal termo é utilizado quando alguém ignora ou deixa de prestar atenção no parceiro para se concentrar no celular. E sabe o que é pior? Às vezes o casal nem percebe isso, mas o preço vem depois.
Um estudo publicado em 2025 nos Estados Unidos identificou uma clara associação entre esse comportamento e uma menor satisfação no relacionamento, menor intimidade, responsividade e proximidade emocional, além de mais conflitos. Este não foi um estudo qualquer, foi um megaestudo que juntou dezenas de pesquisas diferentes, amostras e milhares de participantes.
Isso não significa que olhar o celular durante uma conversa vá destruir um casamento. Afinal de contas o celular nos conecta, facilita a vida, aproxima quem está longe, permite trabalhar, aprender, conversar e acessar um universo inteiro na palma da mão. Portanto, o celular não é o vilão dessa história.
O real problema é a repetição rotineira de comportamentos e atitudes que caracterizam o “partner phubbing”, como:
A conversa interrompida pela notificação.
O jantar em que o telefone permanece ao lado do prato.
O “estou ouvindo” enquanto os olhos continuam na tela.
A tentativa de contar alguma coisa importante e perceber que é preciso disputar atenção com aquilo que está acontecendo no aparelho.
O celular é importante em nossas vidas, parece que cada vez dependemos mais dele, portanto não me parece que a pergunta fundamental seja quanto tempo passamos no celular.
A verdadeira pergunta é: O que deixou de acontecer ou está acontecendo na vida de um casal enquanto cada um estava olhando para sua própria tela?

A interferência das telas na intimidade e no desejo
Esta pergunta não é trivial, até porque pode conter desdobramentos inimagináveis. Veja essa história.
Certa vez recebi em meu consultório um casal que chegou decidido a se separar. A intimidade entre eles havia diminuído profundamente e, entre as questões que os afastavam, havia uma que ocupava um espaço importante: o acesso excessivo à pornografia. Aquilo, que acontecia individualmente diante de uma tela, já estava repercutindo no encontro entre os dois. Infelizmente, esse não foi um caso isolado.
Ao longo da minha experiência atendendo casais, outras histórias envolvendo pornografia já chegaram ao meu consultório. Várias com contextos e intensidades diferentes, mas todas trazendo a questão da interferência causada pela tela do smartphone na intimidade entre duas pessoas.
O mesmo aparelho que concentra trabalho, redes sociais, entretenimento e mensagens também oferece acesso privado e praticamente ilimitado a estímulos sexuais e pornografia. E aqui precisamos evitar julgamentos simplistas.
Um estudo sobre pornografia e satisfação sexual reuniu 41 estudos e mais de 70 mil participantes. No conjunto dos resultados, foi encontrada a associação negativa entre consumo de pornografia e satisfação sexual. A própria pesquisa, entretanto, mostra que essa relação é complexa e não pode ser transformada em uma regra universal. Desta forma, não se trata de afirmar que todo consumo de pornografia representa traição ou necessariamente prejudica a vida sexual de um casal.
Porém, a pergunta que me interessa é outra: Quando é que o celular afeta a relação roubando o espaço, o tempo e a própria convivência do casal?
É quando ele interfere no desejo, substituindo repetidamente o encontro sexual, gerando comparações, precisando ser usado escondido ou rompendo acordos estabelecidos entre os parceiros. Quando isso ocorre, é a hora de olhar não apenas para a tela, mas para o que está acontecendo na relação.
E aqui entramos em um ponto fundamental: cada casal precisa conversar sobre seus próprios limites e acordos.
O que é aceitável para um casal pode não ser para outro. Relacionamentos conscientes não precisam seguir regras universais. Eles precisam construir acordos claros que ambos conheçam e consigam sustentar sem ferir a própria essência.

A fidelidade como uma questão de presença
No Método do Amor Consciente, existe um princípio que considero essencial.
Em uma relação existem três seres: o EU, o VOCÊ e o NÓS.
O Eu precisa existir. O Você também. Afinal cada pessoa precisa preservar sua individualidade, sua autonomia, seus interesses, seu espaço e sua liberdade. Mas existe um terceiro ser que só permanece vivo quando os dois participam de sua construção: o relacionamento. E relacionamento precisa de alimento.
Presença é um deles. Não estou propondo que casais abandonem seus celulares, desliguem a internet ou estabeleçam uma guerra contra a tecnologia. Estou propondo algo bem menos radical e talvez bem mais difícil: perceber.
Perceber quando uma conversa está pedindo mais atenção do que uma notificação.
Perceber quando uma refeição pode ser um espaço de encontro.
Perceber quando a cama pode voltar a ser lugar de intimidade, conversa, toque, desejo ou simplesmente presença.
Perceber quando estamos oferecendo para uma tela justamente aquilo que sentimos falta de receber de quem está ao nosso lado.
Um pequeno teste para esta semana
Escolham um momento do cotidiano de vocês. Pode ser o jantar, o café da manhã, uma conversa no final do dia ou os 30 minutos antes de dormir.
Durante sete dias, experimentem deixar os celulares fora do alcance nesse período. Não como punição e nem como uma forma para fiscalizar um ao outro, mas como uma experiência de presença.
Depois de uma semana, conversem sobre uma única pergunta: O que apareceu entre nós quando a tela saiu do meio?
Talvez apareça algum desconforto, silêncio, ou então conversa, toque, talvez descubram que não sabem mais muito bem o que fazer com aquele tempo juntos. E até essa descoberta pode ser importante porque a consciência não começa quando encontramos a resposta certa. Ela começa quando conseguimos enxergar aquilo que estava acontecendo no automático.
Talvez o celular não seja realmente o amante da relação. Mas ele pode estar ocupando, silenciosamente, um espaço que ninguém percebeu que estava ficando vazio. Por isso, quero deixar uma última pergunta:
Se você pudesse observar para onde foi a sua atenção nos últimos sete dias, quanto dela foi dedicada ao relacionamento que você diz ser tão importante para você?






pq a culpa do phubbing quase sempre recai sobre quem está olhando a tela, e não sobre a falta de estímulo na conversa a dois?
Pesado e real. Só acho que o desafio de 7 dias é quase impossível para quem usa o celular a trabalho. Talvez valesse especificar um horário livre de telas, porque banir totalmente é utopia hoje em dia.