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EU, VOCÊ e NÓS: os três seres de um relacionamento

2 de mai.
8 min de leitura

Quando duas pessoas começam um relacionamento, quantos seres passam a existir ali?

 

Dois parece ser a resposta mais óbvia, mas muitas pessoas responderiam: um só. Afinal, durante muito tempo romantizamos a ideia de que amar é "tornar-se um", como se duas pessoas, ao formarem um casal, precisassem se fundir em uma única existência.

 

Para mim, acontece justamente o contrário: não nos tornamos um. Nós nos tornamos três.

  • Existe EU.

  • Existe VOCÊ.

  • E, a partir do encontro entre os dois, começa a existir algo que antes não existia: NÓS.

 

Essa diferença pode parecer apenas uma forma de olhar para o relacionamento, mas ela muda muita coisa. Porque, se acreditamos que o amor transforma dois em um, podemos começar a confundir vínculo com fusão.

 

O meu sonho passa a precisar ser o seu, o seu desejo precisa combinar com o meu, os amigos passam a ser "nossos", os programas, "nossos", os planos, "nossos". E, quase sem perceber, “aquilo que era EU” e “aquilo que era VOCÊ” podem começar a desaparecer em nome do casal.

 

No MAC - Método do Amor Consciente - parto de uma compreensão diferente: um relacionamento não deveria exigir que duas individualidades desaparecessem para que o NÓS pudesse existir.

 

Pelo contrário, o desafio está justamente em sustentar os três. Porque, às vezes, na tentativa de preservar o NÓS, alguém abandona o EU - um tema central quando pensamos em como amar sem perder a si mesmo. Em outras situações, cada um está tão concentrado no próprio EU que quase não sobra espaço para construir um NÓS. E há ainda relações em que EU e VOCÊ continuam vivendo lado a lado, enquanto ninguém percebe que o terceiro ser está ficando sem alimento.

 

Por isso, antes de entender como cuidar de um relacionamento, talvez seja preciso olhar separadamente para cada um desses três seres.

 


O primeiro ser: EU

 

Somos seres gregários, precisamos de vínculos, pertencimento, afeto e troca, e construímos boa parte da nossa experiência humana na relação com outras pessoas. Mas também somos seres individuais, e existem coisas que ninguém pode fazer por nós: escolhas que ninguém pode fazer por nós, sonhos que ninguém pode realizar por nós, responsabilidades que não podem ser terceirizadas.

 

Há necessidades que podem ser compartilhadas, mas existem outras que pertencem essencialmente ao nosso próprio cuidado. Quando não temos clareza disso, podemos começar a cobrar do parceiro - e do próprio relacionamento - aquilo que talvez não caiba a ele nos oferecer. Esperamos que o outro nos faça felizes, que nos dê propósito, que cure nossas inseguranças e que nos faça sentir completos.

 

Quando isso não acontece, podemos procurar do lado de fora a explicação para aquilo que também precisa ser olhado dentro de nós. Culpamos o parceiro, a relação, o trabalho, a política, a falta de tempo e as circunstâncias.

 

Por isso, olhar para o EU também exige uma pergunta nem sempre confortável: o que, na vida que desejo construir, só pode ser feito por mim? 

 

Individualidade não significa viver como se o outro não existisse, mas sim continuar existindo mesmo estando profundamente vinculado a alguém.

 

Ter sonhos próprios, objetivos próprios, interesses, amizades, autonomia, espaço, capacidade de tomar decisões, continuar crescendo como pessoa. Porque, para mim, um relacionamento saudável não deveria ser formado por duas metades procurando alguém que as complete, ele precisa permitir o encontro de dois seres inteiros.


 

Ser inteiro não significa ser perfeito

 

Essa distinção é fundamental: um ser inteiro não é alguém que resolveu todos os seus problemas, curou todas as suas feridas e chegou ao relacionamento pronto, equilibrado e impecável. Isso seria uma fantasia.

 

Somos inteiros justamente porque somos feitos de luz e sombra. Temos qualidades e fragilidades, generosidade e egoísmo, coragem e medo, maturidade em algumas áreas e imaturidade em outras.

 

Há partes das quais nos orgulhamos e outras que ainda estamos tentando compreender. O outro também. Por isso, amar uma pessoa real exige abandonar a expectativa de conviver apenas com sua parte agradável.


Não podemos exigir que o parceiro seja permanentemente paciente, disponível, compreensivo, amoroso, seguro e "bonzinho", assim como nós também não seremos. Isso não significa aceitar desrespeito, violência ou comportamentos que ultrapassem nossos limites, mas sim reconhecer uma verdade profundamente humana: amar alguém inteiro também é saber que estamos nos relacionando com suas luzes e suas sombras - assim como ele está se relacionando com as nossas.

 

Homem e mulher conversando de forma atenta e acolhedora com xícaras de café em uma mesa de madeira.
Conversas profundas e escuta ativa ajudam o casal a alinhar valores e objetivos de vida.


O segundo ser: VOCÊ

 

Se existe um EU, existe diante de mim alguém que também possui um mundo próprio: VOCÊ.

 

Reconhecer o VOCÊ é, antes de tudo, respeitar quem o outro é. Parece óbvio, mas, ao longo de uma relação, podemos começar a criar expectativas sobre como essa pessoa deveria pensar, sentir, agir, demonstrar amor ou fazer suas escolhas.

 

Quando o outro não corresponde a essa imagem, podemos tentar modificá-lo por meio de cobranças, críticas ou insistências. Sem perceber, deixamos de olhar para a pessoa real e passamos a querer que ela se encaixe na fantasia que construímos de quem deveria ser para atender às nossas expectativas.

 

Respeitar o VOCÊ é permitir que o outro tenha seus próprios desejos, sonhos, opiniões, necessidades, limites e maneiras de estar no mundo. Isso não significa concordar ou aceitar tudo. Podemos fazer pedidos, construir acordos e decidir o que estamos dispostos a flexibilizar. Mas existe uma diferença entre negociar comportamentos e tentar modificar a essência de alguém.

 

Talvez a pergunta seja: Eu consigo amar e respeitar quem está diante de mim ou ainda espero que essa pessoa se transforme em quem eu gostaria que ela fosse?


 

Antes do NÓS, existe um ponto de partida

 

Duas pessoas podem ser muito diferentes e construir uma relação saudável. Não acredito que um casal precise gostar das mesmas coisas, ter personalidades semelhantes ou enxergar o mundo exatamente da mesma maneira.

 

Existem diferenças que enriquecem, mas existem diferenças que podem tornar um projeto de vida praticamente impossível.

 

Por isso, antes de falar sobre cuidar do terceiro ser, existe uma pergunta fundamental: existe uma base para construí-lo? 

 

Para mim, essa base passa especialmente por valores e direção de vida. Isso não significa possuir valores idênticos, mas é importante que existam valores em comum e, principalmente, que os valores fundamentais de um não sejam excludentes em relação aos valores fundamentais do outro.

 

Se liberdade é um valor essencial para uma pessoa e controle é indispensável para a outra, por exemplo, talvez não estejamos apenas diante de uma diferença de personalidade, mas de valores que entram em conflito na própria estrutura da relação.

 

O mesmo vale para aquilo que desejamos construir: quais sonhos podemos compartilhar? Quais objetivos aproximam nossas vidas? Para onde estamos tentando ir juntos?

 

Não precisamos desejar exatamente as mesmas coisas individualmente - afinal, continuamos sendo EU e VOCÊ - mas é difícil imaginar a construção de uma vida inteira ao lado de alguém quando não existe nenhuma direção que desejamos percorrer juntos. É nesse alinhamento que descobrimos se vivemos um amor verdadeiramente recíproco.

 

Valores em comum e objetivos compartilhados não garantem que uma relação dará certo, mas oferecem um ponto de partida para que exista um NÓS possível.

 

Casal sorridente sentado em poltronas folheando um álbum de fotos antigo sobre a mesa de centro.
O "NÓS" é feito de memórias compartilhadas, histórias construídas e rituais de intimidade a dois.

Então nasce o terceiro ser: NÓS

 

Quando EU e VOCÊ decidem construir uma relação, nasce algo que nenhum dos dois possuía sozinho: o relacionamento. O NÓS tem uma história, tem acordos, memórias, rituais, intimidade, projetos, sonhos compartilhados, e tem uma forma própria de existir.

 

A psicologia dos relacionamentos estuda um conceito que se aproxima de parte dessa ideia: o chamado we-ness, a percepção de um "nós" dentro do casal. Uma pesquisa publicada na revista Family Process estudou diferentes dimensões desse "nós" em 375 pessoas que viviam relacionamentos amorosos de longo prazo. Entre os aspectos analisados, a identidade do casal (perceber a parceria também como uma unidade) apresentou associação com satisfação e estabilidade no relacionamento.

 

Isso não significa que a ciência esteja descrevendo o conceito dos Três Seres do MAC, são construções diferentes, mas existe uma aproximação que considero interessante: reconhecer que há uma dimensão do relacionamento que não pode ser compreendida olhando apenas para cada indivíduo separadamente. No MAC, é para essa dimensão que olhamos quando falamos do terceiro ser.

 

Mulher escrevendo em caderno na mesa e homem ao fundo preparando café coado trocando olhares cúmplices.
Manter espaços próprios com cumplicidade: cada um em sua atividade, fortalecendo a autonomia e o carinho mútuo.

O NÓS não pode engolir o EU e o VOCÊ

 

Cuidar do relacionamento não significa viver exclusivamente para ele. Quando o NÓS ocupa todo o espaço, o casal pode começar a acreditar que tudo precisa ser feito junto: os amigos passam a ser apenas "nossos amigos", os programas precisam ser sempre do casal, os sonhos individuais desaparecem, a autonomia passa a ser interpretada como ameaça, e "preciso de um tempo para mim" começa a soar como "não quero mais você".

 

No entanto, existe uma diferença importante entre individualidade e desconexão. Ter espaço próprio não significa amar menos. Pelo contrário, quando EU posso continuar existindo e permito que VOCÊ também exista, temos mais possibilidades de escolher conscientemente aquilo que queremos construir juntos.

 

Por isso, uma frase resume bem esse princípio: o NÓS não substitui o EU e o VOCÊ. Ele nasce do encontro entre os dois.

 


E quando o casal já não sabe para onde está indo?

 

Talvez vocês tenham começado a relação compartilhando muitos sonhos: construir uma casa, ter filhos - ou não ter, viajar, desenvolver determinados projetos, construir segurança financeira ou viver determinada experiência de família. E a vida foi acontecendo. Alguns sonhos foram realizados, outros perderam o sentido, os filhos cresceram, as prioridades mudaram.

 

Em algum momento, o casal pode olhar um para o outro e perceber: "Nós não sabemos mais o que estamos construindo juntos." Isso não significa necessariamente que o relacionamento acabou.

 

Sonhos compartilhados também podem ser recriados, objetivos podem ser atualizados, o casal pode voltar a perguntar: quem somos hoje? O que ainda queremos experimentar juntos? Que vida queremos construir daqui para frente? 

 

Porque não precisamos passar a vida inteira presos aos sonhos que tínhamos quando nos conhecemos, mas precisamos continuar encontrando algum lugar para onde faça sentido caminhar juntos.

 

Casal sorridente cuidando juntos de uma planta de manjericão em um vaso de barro na varanda.
Alimentar a relação é uma construção diária: o terceiro ser exige o cuidado e a dedicação consciente de ambos.

Quem alimenta o terceiro ser?

 

Quando um relacionamento começa a apresentar problemas, existe uma tendência muito humana de olhar primeiro para aquilo que o outro deixou de fazer: "Ele não conversa", "Ela não demonstra", "Ele não procura", "Ela não tem tempo".

 

Talvez essas percepções sejam legítimas, mas existe uma pergunta que considero indispensável: o que eu tenho oferecido ao relacionamento que desejo ter?

 

Não para assumir a responsabilidade do outro, mas para reconhecer a própria. O terceiro ser não pode ser alimentado por apenas uma pessoa. Se somente um cuida, propõe, conversa, cede, procura e tenta reconstruir, não existe construção conjunta.

 

Por outro lado, esperar eternamente que o outro faça primeiro pode criar um impasse curioso: duas pessoas sentindo falta do relacionamento enquanto nenhuma delas se movimenta em direção a ele. O NÓS precisa dos dois.


 

Talvez a pergunta não seja apenas "como está meu relacionamento?"

 

Experimente separar essa pergunta em três:

 

  • Como está o meu EU? Tenho sonhos, autonomia, objetivos e espaço para continuar me desenvolvendo como pessoa? Estou assumindo aquilo que só eu posso fazer por mim?


  • Como estou enxergando o VOCÊ? Consigo reconhecer a pessoa real que existe diante de mim - com suas diferenças, necessidades, limites, luzes e sombras - ou estou tentando transformá-la naquilo que gostaria que fosse?

     

  • Como está o nosso NÓS? Ainda temos valores que nos permitem caminhar juntos? Ainda existem sonhos, projetos ou objetivos compartilhados? Estamos alimentando a relação ou apenas administrando a vida?

 

Talvez o desafio de um relacionamento amoroso não seja escolher entre ser você mesmo ou ser um casal, mas aprender a sustentar os três: um EU inteiro - com luz e sombra -, um VOCÊ inteiro - que não precisa ser uma cópia de mim -, e um NÓS que tenha uma base para existir, uma direção para caminhar e duas pessoas dispostas a continuar construindo-o.

 

Ao chegar aqui, é possível que você reconheça que precisa cuidar melhor do seu EU, compreender o VOCÊ e voltar a alimentar o NÓS, mas ainda não sabe exatamente como fazer isso na prática.

 

Muitas vezes, existe amor e vontade de se reconectar, mas faltam consciência, ferramentas e um caminho para transformar essa intenção em mudança. Por vezes, entender por que a terapia de casal é importante pode ser o primeiro passo nesse processo.

 

Foi justamente para ajudar casais nesse processo que desenvolvi o MAC - Método do Amor Consciente: um método estruturado para quem deseja aprender novas formas de se relacionar, reconstruir a conexão e participar mais conscientemente da relação que deseja viver.

 

Se você sente que esse pode ser o momento de olhar para o relacionamento de vocês de uma nova maneira, entre em contato comigo para conhecer o MAC.



Mulher lendo livro no sofá enquanto homem trabalha no computador no mesmo ambiente iluminado.
Estar junto sem perder a individualidade: a convivência saudável permite que o EU e o VOCÊ continuem existindo no mesmo espaço.

2 comentários

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Rosa
04 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente!! Tenho uma dúvida: em que momento o EU deixa de ser individualismo e passa a prejudicar o NÓS? Qual é o limite?

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Larissa
04 de set.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A teoria é maravilhosa, mas na prática com filhos pequenos é quase impossível sustentar o 'EU'. Meu espaço individual sumiu completamente.

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